Como pessoas brancas podem ajudar no combate ao racismo?

As pessoas brancas são 45,1% da população brasileira. Apesar de ser um número significativo em um país com mais de 200 milhões de habitantes, onde estão essas pessoas quando falamos de dados relacionados às várias desigualdades da nossa sociedade?

Os 45% não estão presentes, nem de longe, em algumas estatísticas como:

  • Homicídios: 71% das vítimas de homicídio no Brasil são negras, segundo o Atlas da Violência 2017;
  • Pobreza: entre os 10% mais pobres, 75,5% são negros, diz o IBGE na Síntese de Indicadores Sociais de 2016.
  • Educação: a versão de 2015 do mesmo estudo do IBGE mostra que, dos jovens entre 15 e 29 anos que não trabalham nem estudavam, 62,9% são negros. Dos estudantes de 18 a 24 anos que estavam na universidade, 45,5% são negros.

Onde estão os brancos? Beneficiando-se do sistema racista: eles são 79,7% entre o 1% mais rico da população e são 71,4% dos estudantes de ensino superior, de acordo com os relatórios citados no parágrafo anterior. São maioria em diferentes posições privilegiadas da estrutura social e estão na política, na mídia e em diversos outros espaços de poder.

Dá para esperar que as pessoas brancas se mexam em prol do combate ao racismo? Apesar delas não serem seguidas nos supermercados, mortas pela polícia ou reprovadas em entrevistas de emprego por causa da cor de pele, essa gente branca ainda pode, a seu modo, contribuir para a construção de um país um pouco menos racista, dizem especialistas.

Reconhecer-se racista já é um primeiro passo.

Toda pessoa branca é racista?

“Sim. Não se pode encarar essa questão apenas no âmbito individual, mas sim coletivo. Quando alguém se beneficia do privilégio de sua raça, tanto agindo em causa própria quanto calando/consentindo, ou, ainda, silenciando o outro, está sendo racista”, explica Aza Njeri, doutora e mestre em Literaturas Africanas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Ser racista não é apenas chamar uma pessoa negra de macaco. Pensar assim é agir com ingenuidade, segundo a doutora.

“Racismo é algo que não se consegue dimensionar, porque pode-se tecer comentários/comportamentos racistas na mesa do jantar de sua casa e ninguém se indignar porque aquele coletivo não se sensibiliza. Como dimensionar aquele momento em que ninguém senta do nosso lado no ônibus?”, pergunta.

Já Juarez Xavier, chefe do Departamento de Comunicação Social da Unesp, prefere dizer que toda pessoa branca no Brasil “se beneficia do passado escravocrata do país e se beneficia daquilo que hoje se chama de branquitude”, uma vantagem que brancos têm em relação aos não brancos e, principalmente, sobre os negros.

Esses privilégios raciais não são fáceis de superar, continua o especialista:

“Hoje no Brasil, o capital econômico, o social, o político e o capital cultural se concentram na mão de um grupo pequeno da classe média, branca, urbana, patrimonialista, escolarizada e, segundo os dados apontados pelo Datafolha, proto-fascista. Quando você pensa em superar privilégios, isso significa você desconcentrar esses capitais”.

E os privilegiados, com frequência, também não querem se reconhecer como tais. “Porque quem está confortável não quer se mexer”, resume Njeri.

Não ajudam e ainda atrapalham

Não basta não se mexer: muitos brancos tentam diminuir a dimensão dos problemas raciais, atrapalhando o progresso das reivindicações da população negra com opiniões “duvidosas”.

Um bom exemplo são as críticas ao Dia da Consciência Negra ou as célebres declarações de que “só existe uma raça: a humana”.

“É muito interessante, pois o humanismo vai ganhar força no final do século XIX depois que os europeus haviam pilhado, espoliado e matado todos os povos não brancos. No momento em que esses outros grupos conseguem alguma autonomia frente à situação e podem requerer reparação/vingança, surge o ‘somos todos humanos’. Muito conveniente, não?”, questiona a doutora, que continua:

“Diante do [aspecto] socioeconômico, dos territórios, da polícia, sabemos muito bem quem são mais humanos do que os outros”.

Um “Dia da Consciência Humana” é uma falácia, já que “o racismo criou mecanismos subjetivos e objetivos para tirar o negro do universo da humanidade”, conta Xavier.

“Se você for discutir um ‘Dia da Consciência Humana’ sem levar em consideração as diferenças que há entre o grupo negro segregado e o grupo branco que têm privilégios (...), você acaba criando um mecanismo de perpetuação das desigualdades.”

O especialista da Unesp explica que o Dia da Consciência Negra visa à reflexão política, histórica e ainda chamar a atenção de toda a sociedade para o problema racial, sendo a data um instrumento para “constituição e consolidação da identidade negra”.

O que os brancos podem fazer?

“A pessoa branca nunca vai entender” o que é o racismo, diz Aza Njeri. Ainda assim, um meio de ajudar no debate racial é se enxergar mais.

“Olhar para si mesmas [pessoas brancas]. É desleal elas, detentoras de melhores escolas, livros, bibliotecas, legarem para nós o fardo de educá-las. Principalmente quando a nossa preocupação é ficar vivos”, afirma. “Precisamos que a branquitude se implique na causa de maneira honesta para que possamos dar um passo social frente à questão”.

E educar-se é uma das formas de isso acontecer, completa a especialista. “É importante a educação racial para entender a sua relação pessoal com o racismo (…). Com essa informação, o indivíduo escolherá se quer ou não contribuir para a manutenção do status quo.”

A informação também é destacada por Juarez Xavier. Para ele, assumir as consequências do regime escravocrata, perceber que o racismo atrapalha o desenvolvimento de toda a nação e entender as causas dos privilégios — e não considerá-los como direitos — são alguns dos caminhos para que os brancos entendam um pouco mais a desigualdade racial brasileira.

“Para que a gente supere essa desigualdade, é necessário que haja uma ação política conjunta da sociedade. O negro é protagonista na luta política contra o racismo praticamente sozinho, há mais de 500 anos. A parcela branca da sociedade não tem se mobilizado efetivamente na luta”, opina.

Mobilização esta que é uma responsabilidade da população. “Uma de suas funções é questionar os privilégios ‘naturais’ que ela [sociedade] recebeu a partir dessa estrutura social distorcida, e lutar por uma sociedade democrática e igualitária”, diz.

O especialista não deixa de mencionar que essa busca não envolve apenas convencimento, mas também políticas públicas como cotas raciais, distribuição de renda e outras medidas que visam desconcentrar capitais que, do jeito que estão, mantêm o racismo estrutural vigente.

Educar brancos?

Apesar de ser importante que os brancos tenham mais educação racial, Aza Njeri é enfática: não são as pessoas negras que devem perder seu tempo fazendo isso.

“Acho inconcebível exigir que a negritude gaste a sua energia educando-os, sendo que eles próprios têm meios para tal. (…) Eles têm filosofia, história, literatura, tecnologia, academias pensantes capazes de fazer isso e, se não o fazem, é porque não é interessante para eles”.

“Nós, negros, devemos pensar em quais estratégias podemos traçar para que possamos sair desse atravessamento genocida. Não acredito na mudança vinda por vias brancas. Acredito no ‘nós por nós’. Você não pode acreditar que a emancipação negra virá pelo braço que te silencia e oprime”, explica.

E entre as estratégias que a população negra deve utilizar para não se resignar em locais de subalternidade, uma das destacadas pela especialista é afrocentrar-se:

“Ou seja, entender que [a pessoa negra] faz parte do povo africano na diáspora brasileira. Resgatar a cultura e história negra e orgulhar-se delas. Ter responsabilidade econômica, dando preferência a estabelecimentos pretos na hora de consumir. Fazer o dinheiro circular entre nós. Passar a relacionar-se com o mundo a partir de uma perspectiva que te coloque como centro e sujeito das ações, pensamentos e decisões”.

Acreditamos que o racismo vai acabar quando houver mais informação para a sociedade. Confira todas as reportagens especiais produzidas para o Dia da Consciência Negra aqui.